ATINos dias atuais temos a nossa disposição computadores pessoais, com uma enorme capacidade de processamento e armazenamento de dados, algo que há duas décadas atrás era simplesmente inimaginável. Grande parte de tal "revolução" é voltada para aplicações multimídia e internet. Um exemplo disso é simplesmente assistir TV. Mas será que isso é possível em um PC antigo? Qual seria o desempenho? Como aproveitar um hardware ultrapassado para efetuar essa tarefa? Sem maiores pretensões e aproveitando uma onda de saudosismo, apresento aqui minha experiência com um sistema baseado em um processador K6-III de 500 MHz, dotado de uma placa de vídeo PCI de 2 MB e uma outra de TV, em um slot ISA.

Durante minha vida acadêmica tive uma excelente oportunidade de ver a significativa evolução da informática, salientado ainda o surgimento dos computadores pessoais e da própria internet. Contudo, quando olho para o passado fico sempre me perguntando se toda a potencialidade do hardware hoje disponível é realmente aproveitada. Em minha mente, sempre fica a impressão sombria de que os recursos de hardware são de fato sub utilizados, perdidos no caminho do desenvolvimento de software em inúmeras camadas de aplicativos, plugins, componentes, serviços e módulos que desembocam em sistemas operacionais pesados e muito pouco otimizados. É evidente que esse é o preço que pagamos pelos recursos disponibilizados, o que não constitui uma resposta completamente satisfatória para acalmar minhas suspeitas.

O primeiro PC que eu adquiri, em 1996, era baseado em um processador 6X86 P166+ (133 MHz), projetado pela Cyrix e fabricado pela IBM, que vinha com uma placa de vídeo PCI, modelo ATI RAGE 3D/II com 2 MB de memória, tal como ilustrado RAGE 3Dao lado. Já naquela época, a empresa ATI disponibilizava uma placa de TV para barramento ISA, chamada ATI-TV, que nunca consegui adquirir devido ao seu preço elevado. Contudo, no ano passado, um camarada das antigas, Jose Nuno Figueiredo, achou uma dessas placas na "sucata" e me passou ela. Tal placa, mostrada ao lado, é baseada no chipset BT829, possuindo um sintonizador de TV Philips FI-1236/MK2 e um processador de áudio TDA8425, ambos controlados por um barramento I2C. Essa placa de TV é diretamente conectada a placa de vídeo via um cabo de 40 vias, idêntico a um cabo IDE usado para HDDs tipo PATA, observando-se contudo a posição do TAG (via numero 1 do cabo PATA). Isso compõem uma espécie de barramento dedicado por onde trafega os dados das imagens digitalizadas a partir do sintonizador diretamente para a placa de vídeo. Tal estratégia evita que o barramento da placa-mãe, que na época era bem mais lento que os atuais, seja "entupido" com o trafego de dados entre ambas as interfaces. Isso constitui o denominado "overlay" que tem como objetivo a liberação de recursos de hardware para o sistema operacional que passa a atuar somente no controle das placas e no posicionamento da janela na tela do desktop. Quanto ao áudio cabe mencionar que ele é diretamente fornecido ATI-TVpor um canal analógico estereofônico, para a placa de som usando uma ponte na entrada CD-IN. Em outras palavras, o conector analógico de áudio vindo do drive de CDROM é conectado na entrada CD-IN da placa ATI-TV (ISA) e a saída CD-OUT conectada na entrada de CD da placa de som via um cabo de áudio do mesmo gênero.

Após montar as placas de vídeo (ATI RAGE 3D/II - PCI), som (Sound Blaster AWE32 - ISA) e TV (ATI-TV - ISA) sobre uma placa mãe DFI K6XV3+/66 (rev. BB+ com update de BIOS e barramento de 100 Mhz) equipada com um processador K6-III de 500 MHz e 192 MB (3x 64 MB) de memória RAM PC100, passei para a fase de testes. Primeiramente, instalei o Windows XP em um HDD Maxtor de 80 GB (IDE-PATA) juntamente com a versão lite do aplicativo ChrisTV. Embora o sistema tenha ficado muito lento, tal como esperado, o desempenho da TV foi satisfatório, funcionando no limite da maquina. Cabe salientar que a resolução de vídeo que usei foi de 800:600 pixels, sendo a janela da TV de aproximadamente 320:240. Contudo, em tela cheia o "peso" do sistema se manifesta e o resultado fica péssimo, degradando terrivelmente a taxa de quadros e o sincronismo com o áudio. Outro inconveniente é devido ao fato de que o monitor LCD usado possui uma razão de pixels horizontal:vertical diferente de 4:3. Isso resulta das severas limitações da placa de vídeo. Portanto, na melhor das hipóteses a imagem obtida fica "espichada" na horizontal, constituindo assim um problema que é dificilmente contornável. Algo similar deve ocorrer com o Windows 95/98. Contudo, não efetuei testes com tais sistemas.

A partir desse ponto passei para testes com sistemas operacionais alternativos. Me ocorreu então ressuscitar uma velha copia do BeOS - a versão BeOS Max Edtion ver.3.1, que instalei em um HDD Seagate de 2.5 GB que continua funcionando. O BeOS foi uma ATI-TVdaquelas boas idéias que naufragaram no decorrer do tempo. Ele é um sistema operacional extremamente leve, pequeno e voltado para aplicações multimídia, rodando com pouca memória, ocupando pouco espaço em HDD (em torno de 400 MB) e "bootando" em menos de 1 minuto. Mas, ao contrario do Windows e do Linux, não atingiu sua maturidade, sendo a empresa que o desenvolveu vendida para a Palm Inc. Embora tenha surgido outras versões comerciais, como o magnussoft Zeta, ainda apresenta vários problemas. Atualmente uma nova versão open-sourse desse sistema, o Haiku, encontra-se em desenvolvimento. Sendo assim, após instalar este sistema operacional, passei para a instalação de alguns drivers adicionais - para a placa de som (sb16-1.2-x86.pkg) e para a ATI-TV (ativideo-0.7-beta5.pkg), além de alguns aplicativos opcionais para tentar efetuar a captura de vídeo (Capture-0.8.16 e VideoRecorder). Todos eles podem ser encontrados no BeBits sendo também disponíveis para download aqui. Cabe ainda mencionar que sendo um sistema voltado para aplicações multimídia, o BeOS já disponibiliza um aplicativo padrão para assistir TV, dispensando portanto instalações adicionais.

BeOS-TVDepois de algumas configurações, e usando uma resolução de vídeo de 800:600, obtive um resultado excelente para a imagem da TV, em qualquer tamanho de janela, sem perda de quadros. Contudo, o driver que encontrei não oferece o áudio. Como eu não estava disposto a desenvolver uma nova versão do driver adotei uma solução extremamente simplória, ou seja, extrair o áudio diretamente a partir do sintonizador FI-1236/MK2 (pino 25) e conectar na entrada LINE-IN da placa de som via um capacitor de 1 uF, tal como ilustrado na figura acima. Isso, de fato, resolveu definitivamente o problema do áudio e pude assistir TV sem problema algum e com uma ótima sincronização. Salienta-se que o problema da razão de pixels aparece novamente com o monitor LCD. Contudo, como o BeOS permite redimensionar a janela do aplicativo TV sem manter a proporção entre suas dimensões horizontal e vertical, tal janela pode ser redimensionada até mostrar uma imagem com proporções corretas. O resultado obtido pode ser visto ao lado, onde a imagem foi obtida com uma câmera de um celular. Observe que isso é proposital, ou seja, não se trata de uma captura de tela justamente para demonstrar que a coisa toda de fato funciona. Adicionalmente, tentei efetuar uma gravação de vídeo, mas não obtive um resultado que fosse minimamente razoável. Talvez isso seria possível se o desenvolvimento do BeOS tivesse continuado. Como isso não ocorreu, aguardo o Haiku.